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6 de janeiro de 2018

Reacender as estrelas


Ilustração de Sharon Harmer


É tempo de reacender as estrelas.

                                                                 Apollinaire

1 de janeiro de 2018

Comprar um lírio

Ilustração de Minna Immonen

O utilitário passou a ser a regra de avaliação das nossas sociedades, mas precisamos também do inútil. Ao lado do pão precisaremos sempre de rosas. Ou melhor: em momentos-chave da nossa existência, se não forem as rosas a sustentar-nos, nem o pão nos servirá. Um dos grandes mestres da poesia chinesa, Li Po, tem um poema curto onde recomenda: "Vende um dos teus pães e compra um lírio."



José Tolentino Mendonça "Trocar o pão por um lírio" 
in O pequeno caminho das grandes perguntas, Quetzal, 2017, 1ª ed., p. 30


29 de dezembro de 2017

Somos o que lemos


Ilustração de Kat Menschik

Às vezes pergunto-me quem raio seria eu se, em vez de ter lido os livros que li, tivesse antes lido os que não li. Provavelmente cruzar-me-ia comigo mesmo na rua e não me reconheceria.

Manuel António Pina

2 de novembro de 2017

Eu, sabendo que te amo



 
il. Rima Koussa
Eu, sabendo que te amo,
e como as coisas do amor são difíceis,
preparo em silêncio a mesa
do jogo, estendo as peças
sobre o tabuleiro, disponho os lugares
necessários para que tudo
comece: as cadeiras
uma em frente da outra, embora saiba
que as mãos não se podem tocar,
e que para além das dificuldades,
hesitações, recuos
ou avanços possíveis, só os olhos
transportam, talvez, uma hipótese
de entendimento. É então que chegas,
e como se um vento do norte
entrasse por uma janela aberta,
o jogo inteiro voa pelos ares,
o frio enche-te os olhos de lágrimas,
e empurras-me para dentro, onde
o fogo consome o que resta
do nosso quebra-cabeças.

 Nuno Júdice, in A Fonte da Vida

28 de outubro de 2017

Chegas tarde ao teu tempo

Ilustração de Sarah Jarrett

Chegas tarde ao teu tempo. Palavras duras

que escuto agora como uma derrota.

Mas já não sei de nenhum combate,

nem que tempo era o meu. É uma pena

não se ser ninguém, ter errado

o comboio, ter ficado sem malas,

adormecido no banco, passar ao largo,

e achar-se agora sem roupa limpa,

cansado, num hotel reles de uma só

e má estrela, que deve ser a minha.

Prescindirei de tudo menos do poeta

que fica do desastre. Fingirei ver

que no final de contas errei o século:

isto será Paris e eu Verlaine.

                                           Joan Margarit



24 de dezembro de 2016

O Natal é a espera que acontece

Ilustração de Marijan Ramljak



Isabel Figueiredo e Jorge Reis-Sá, in

Advento e Natal para crentes e não-crentes,

Paulus Editora, 2016

27 de novembro de 2016

A estrela

Ilustração de mj-Marijan Ramljak


Precisamos de uma estrela que desarme a noite
Precisamos de uma palavra transparente
que nos ofereça a possibilidade de um começo
Precisamos de uma esperança que se propague
Precisamos de lugares límpidos
fora e dentro de nós
Precisamos de reencontrar uma vida onde a prece
e o louvor voltem a ser possíveis
Precisamos de um gesto para dizer uma alegria
maior do que a alegria
Precisamos de acolher o dom
e o seu equilíbrio difícil e leve
Precisamos de alguém que em pleno inverno nos ensine
a trazer no coração a primavera a arder

José Tolentino Mendonça